19 dezembro, 2007

A questão da segurança

Num inquérito aos leitores sobre a videovigilância elaborado pelo jornal Público, quase 70% dos participantes mostraram-se favoráveis a essa forma de segurança. A maior parte dos restantes apoiava-a apenas em locais perigosos. Uma ínfima parcela estava naturalmente contra.
Os poderes instituidos das sociedades actuais fomentam este binómio cultural:
insegurança/medo.
Sob as mais diversas formas: os ataques terroristas (quem sabe se não inventados - false flags), as doenças mortais largamente propagandeadas (mas nunca ocorridas - gripe das aves, vacas loucas, etc.), a espaventosa divulgação do aumento da criminalidade, as formidáveis pandemias que nos ameaçam (gripe das aves, etc...), as ameaças metereológicas (e os seus infindáveis alertas amarelos, laranjas....), enfim uma panóplia de ameaças que pairam sobre os indefesos cidadãos. E estes precisam de ser protegidos!!!! E precisam de segurança!!!
Mas se calhar o grande objectivo é controlar a actividade dos cidadãos. E estes só aceitarão ser controlados se sentirem as ameaças à sua segurança.
Isto significa que a maior parte dos cidadãos está disposto a abdicar da sua liberdade e ver todos os seus movimentos escrutinados a troco de uma pretensa segurança. Juntando 1+1....




A INSTRUÇÃO DO MEDO

Baptista Bastos


Os portugueses estão a ser espreitados por todos os sítios, lugares e ângulos, e esta estrutura muito moderna, eficaz e internacional de "segurança" parece torná-los extremamente felizes e, até, levemente excitados. O olho electrónico quase se tornou numa expressão artística: possui todos os moldes, formas, cores e tamanhos. Nos bancos, nos elevadores, nos hospitais, nos bairros mais elegantes, nos corredores dos hotéis, nas repartições, nos Correios, à esquina, no cairel dos edifícios, nas auto-estradas e nas ruas, de dia e à noite, com aviso e sem aviso - lá está ele. Quem sabe se a vigília incide sobre os amores clandestinos, como no belíssimo poema de Daniel Filipe? Asseguram-me que, em breve, estará nos cemitérios. Não por causa dos habitantes; sim para dissuadir quem ouse profanar o pétreo sono dos mortos.
O olho incisivo, inclemente, gélido, implacável, informa, não se sabe bem a quem, daquilo que, modestamente, estamos a fazer. As nossas minudências quotidianas: contemplar os movimentos do andar de certas mulheres, observar os livros expostos em montras, recalcitrar contra a vida infame, são decifradas como sujeito de intriga e apreensão públicas. E "ninguém sabe quantas câmaras nos andam a filmar todos os dias", diz o Expresso num bem organizado texto de Filipe Santos Costa.José Magalhães tranquiliza-nos: "Isto não é o advento do Robocop." O sossego das almas dura pouco. O secretário de Estado adverte: "Estamos a caminho de uma sociedade onde a videovigilância é utilizada por cada vez mais entidades." Está aqui muito bem fixado o que nos espera. O lirismo das ruas, a épica das noites molhadas em balcões de bares, a frenética agitação triangular entre o Bairro Alto, 24 de Julho e Docas deixam, ou já deixaram, de ser o poema que se procura para se transformar numa perpétua homenagem ao império da desconfiança. A sociedade, num futuro muito próximo, reduzirá o seu já limitado espaço de liberdade a uma instância insistentemente policiada. Não haverá sociedade como intervenção cultural, relação com o contrário, subdivisão de grupos de interesses, coexistência de sinalizações alternativas. Ser continuamente vigiado liquida o fundamento das instituições democráticas, o qual oscila entre o tratamento igualitário e o tratamento diferenciado. Impossível escapar ao reconhecimento de que caminhamos para uma nova e diferente ditadura, dissimulada em leis de "segurança", de "ordem" e de "autoridade". Não há lugar para o exercício das "referências", porque se deixou de admitir a alteridade. Uma das características sociais reside no direito do indivíduo a não ser "massa", e a recusar a rigidez identitária que a vigilância (pelo medo que lhe subjaz) sugere, impõe e inculca.
Não sorria. Está a ser filmado.

1 comentário:

Tiago Carneiro disse...

FELIZ NATAL
E
UM BOM ANO DE 2008

São os votos do
DEMOCRACIA EM PORTUGAL

Abraço
Tiago